Artes e Cultura > Arte Soviética

Em 1991, ano da dissolução da URSS, Ilya Kabakov realiza uma instalação intitulada The Red Wagon. Esta consiste numa unidade com três partes. A primeira é um complexo de escadas em madeira, em referência às estruturas construtivistas dos anos 20, que conduz para o alto, onde são adornadas festivamente com bandeiras. Como refere o autor no seu site, "é o caminho para cima, em direcção ao espaço exterior, em direcção ao céu, em direcção ao futuro brilhante" (1). Aparentemente são o início da instalação, pois precedem o vagão de comboio. Mas o visitante apercebe-se que não levam a lado nenhum e que a entrada para o vagão do lado das escadas está fechada. São assim uma entrada pomposa mas que falha o seu propósito: o de deixar alguém entrar.

A segunda parte é um vagão vermelho, que tem pinturas alusivas à estética do realismo socialista em vez de janelas. Assente sobre uma estrutura de madeira, o estatismo deste vagão sem rodas é a negação do fim para que fora concebido, deslocar-se a alta velocidade. O interior apresenta um banco do lado esquerdo e, do lado direito, atrás de uma barreira, uma pintura com uma paisagem. Soa música. A estrutura deve conduzir o visitante a pensar que vai assistir a uma performance num ambiente acolhedor, mas esta nunca acontece. Cansado de esperar, o visitante sai pela mesma porta por onde entrou, no exterior da qual encontra um cenário de caos com pilhas de lixo e entulho - os materiais remanescentes da construção das duas partes prévias da instalação, constituindo esta a terceira parte.



Ao comentar a instalação, Kabakov afirma que ela resultou da necessidade de compreender e memorizar o tempo soviético no momento em que sentiu que a história soviética estava a chegar ao fim:

Na minha imaginação ela [a história soviética] podia ser melhor retratada como uma espécie de arco, uma "ponte". Um primeiro período de fé e entusiasmo, esperanças pela construção de um futuro luminoso, corresponde à primeira porção - a ascendente. Cronologicamente, pode ser definido como o período desde Outubro de 1917 a 1932 (...). O próximo período é o do eterno "Paraíso Estalinista Soviético", quando o futuro remoto se tornou instantaneamente verdade e se tornou o "agora" eternamente bonito. O tempo parou, como sucede sempre no Paraíso, e tudo começou a florescer para sempre sob o sol da Constituição de Estaline e do seu olho vigilante. Esse foi o período de 1936 até 1963, e pode ser representado como a secção média da ponte - o seu plano, a sua parte horizontal. E finalmente, há um terceiro período desde 1963 até 1985, quando tudo se começou a mover em direcção ao final que inevitavelmente se aproxima, como a parte descendente da ponte. (...) A minha geração foi apanhada no "vitorioso" segundo período, e depois atravessou a fase inteira de declínio e decadência - ganhando assim a oportunidade de ver todo o "conto de fadas de horror" do fim para o princípio retrospectivamente. (2)


O visitante é assim levado a percorrer fisicamente a história soviética: "ele tem de falhar o esforço para alcançar o céu, depois viver através do período de antecipação frustrante e infrutífera - apenas para se encontrar perante pilhas de lixo e entulho no fim da estrada". (3)

Kabakov afirma ainda que esta perspectiva sobre a história e sobre a história da arte soviética no século XX se consolidou após a leitura da obra de Boris Groys, Estaline. A Obra de Arte Total:

Mas também se tornou claro para mim (especialmente depois do livro de Boris Groys Estaline. A Obra de Arte Total ser publicado) que os três períodos acima mencionados correspondem aos três estágios de desenvolvimento da arte soviética no século XX. Primeiro veio a vanguarda, depois o Realismo Socialista começou a florescer e finalmente a arte não-oficial (como a "sots art" e outras) emergiu. Nenhuma das três fases contradisse a antecedente - pelo contrário, as três representam estágios integrais num processo total e sequencialmente consistente. (4)

Das três fases da arte soviética evocadas por Kabakov - vanguardas históricas, realismo socialista e arte não-oficial (a que corresponde a obra de Kabakov) -, a historiografia da arte ocidental costuma celebrar a primeira (por se encaixar no seu paradigma historiográfico modernista), condenar a segunda (por não ser considerada "arte" pelo referido paradigma) e desconhecer em larga medida a terceira.

A selecção de imagens da arte soviética para este dossier procurou balizar-se cronologicamente entre 1917 e 1991 e, tal como na categorização proposta por Kabakov e Groys, apresenta-se dividida em três núcleos: arte das vanguardas históricas, arte do realismo socialista e arte não-oficial. A bibliografia e fontes seleccionadas decorrem de uma determinada perspectiva sobre o tema; sempre que possível, constam links para os PDF de algumas das fontes e obras consideradas essenciais. As entrevistas, vídeos e sites seleccionados permitem um aprofundamento menos direccionado sobre o tema.

A instalação de Kabakov, não obstante o aparente desencantamento que a sua narrativa verbal lhe acrescenta, devolve-nos algo dessa plasticidade para se repensar um linearismo teleológico. Numa entrevista, Homi Bhabha fala de uma concepção de tempo que emerge de uma noção de belatedness, entendida como uma ideia estética e ética, a qual permite criar redes de tempo onde se misturam um tempo extemporâneo, um tempo proléptico e um tempo quotidiano; uma temporalidade onde se mistura o passado, o presente, o futuro e o modo como vemos o presente no passado, sustentando de seguida que esta tecitura do tempo é algo que a arte, a cultura e a literatura podem fazer melhor do que outros discursos. (5) Assim, podemos deslocar-nos, a partir do nosso presente, nas diversas partes da instalação de Kabakov, procurando reconhecer nos dispositivos e estratégias de cada fase sugestões que o presente pode recriar para imaginar novos futuros. E se, como afirma Frederic Jameson, a categoria de utopia nos é sobretudo necessária numa era pós-utópica, talvez devêssemos voltar ao início da instalação, tentando escapar à temporalidade linear sugerida pelo vagão de comboio. (6) Não para repetir a hagiografia do modernismo ocidental sobre o martírio das vanguardas russas, mas sobretudo para inventar outra concepção temporal e para desnaturalizar os escombros finais - que, em parte, permanecem os escombros do presente.

Poderíamos assim não ver nos escombros um resultado natural e inevitável, mas, recuperando a capacidade de agenciamento, retirar o que ao nosso presente interessa de cada fase. Isso poderá ser, por exemplo, o olhar crítico e desassombrado da arte não-oficial, a imaginação de um futuro como motivação para um presente do realismo socialista e o voluntarismo e radicalismo das vanguardas. Porque o presente nunca é uma inevitabilidade, e menos ainda o é o futuro. Talvez por isso valha a pena comemorar revoluções.


Luísa Cardoso


Notas:
1 - http://www.ilya-emilia-kabakov.com, consultado a 24.08.2012
2 - Idem
3 - Idem
4 - Idem
5 - Entrevista de Homi Bhabha a Luis Pérez-Orama, no âmbito do 30ª Bienal de São Paulo - A Iminência das Poéticas, 6-7 de Novembro de 2012, consultada em https://www.youtube.com/watch?v=ym2dPYqIvmA, a 28.12.2016.
6 - Frederic Jameson, "Postmodernism and Utopia", Utopia Post Utopia: Configurations of Nature and Culture in Recent Sculpture and Photography. Boston: The Institute of Contemporary Art; Cambridge, Mass.: The MIT Press, 1988, pp. 11-32.
Frederic Jameson, Archaeologies of the Future. The Desire Called Utopia and Other Science Fictions. London/New York: Verso, 2005.

Imagens

Realismo Socialista

Vanguarda

Arte não-oficial

Fontes e bibliografia:

Fontes:

  • "On the Proletkults (Letter from the Central Committee, R.C.P.)", 1 December 1920 in C. Vaughan James, Soviet Socialist Realism: Origins and Theory, London: Macmillan Press, 1973, pp. 113-115

  • "Resolution of the Politburo of the TsK RKP(b) On the Party policy in the sphere of literature", 18 June 1925 in Katerina Clark and Evgeny Dobrenko, with Andrei Artizov and Oleg Naumov, Soviet Culture and Power. A History in Documents, 1917-1953, New Haven & London: Yale University Press, 2007, pp. 39-45

  • "Letter from I.V. Stalin to playwright V.N. Bill-Belostserkovsky", 1 February 1929 in Katerina Clark and Evgeny Dobrenko, with Andrei Artizov and Oleg Naumov, Soviet Culture and Power. A History in Documents, 1917-1953, New Haven & London: Yale University Press, 2007, pp. 56-57

  • "Resolution of the TsK VKP(b) Politburo On restructuring literary and arts organizations", 23 April 1932 in Katerina Clark and Evgeny Dobrenko, with Andrei Artizov and Oleg Naumov, Soviet Culture and Power. A History in Documents, 1917-1953, New Haven & London: Yale University Press, 2007, pp. 151-2

  • Maxim Gorky, "Soviet Literature" (Speech at the First Soviet Writers' Congress, 1934) in Problems of Soviet Literature. Reports and Speeches at the First Soviet Writers' Congress, Moscow and Leningrad: Co-Operative Publishing Society of Foreign Workers in the U.S.S.R, 1935, pp. 27-69.

  • A. A. Zhdanov, "Soviet Literature - The richest in Ideas. The Most Advanced Literature" (Speech at the First Soviet Writers' Congress, 1934), in Problems of Soviet Literature. Reports and Speeches at the First Soviet Writers' Congress, Moscow and Leningrad: Co-Operative Publishing Society of Foreign Workers in the U.S.S.R., 1935, pp. 15-24

  • ou Andrei Jdanov, "Discours au 1er Congrès des Écrivains Soviétiques", 17 août 1934, in Sur la Littérature, La Philosophie et la Musique ou Paris: Les Éditions de la Nouvelle Critique, 1950, p. 9-17

  • ou https://www.marxists.org/subject/art/lit_crit/sovietwritercongress/zdhanov.htm

  • "Chaos Instead of Music: Concerning the opera of Lady Macbeth of Mtsenk District", Pravda, 28 January 1936 in http://soviethistory.msu.edu/1936-2/upheaval-in-the-opera/upheaval-in-the-opera-text/chaos-instead-of-music/

  • Polikarp Lebedev, "Against Formalism in Soviet Painting", Pod znamenenem marksizma, 6, 1936 in Ilia Dorontchenkov (ed.), Russian and Soviet Views of Modern Western Art: 1890s to Mid-1930s, Berkely: University of California Press, 2009, pp. 306-7

  • "Memorandum of Chairman P.M. Kerzhentsev of the Committee on Arts Affairs under the SNK SSSR to I.V. Stalin and V.M. Molotov on the need to remove artistic compositions of the Russian avant-garde from museum exhibitions", 9 May 1936 in Katerina Clark and Evgeny Dobrenko, with Andrei Artizov and Oleg Naumov, Soviet Culture and Power. A History in Documents, 1917-1953, New Haven & London, Yale University Press, 2007, pp 241-242

  • "The Introductory Text to the Soviet Pavillion at the World's Fair, 1939" in The Aesthetic Arsenal: Socialist Realism Under Stalin. (ed. by Miranda Banks), New York: The Institute of Contemporary Arts, P.S.1 Museum, 1993, p. 8-11

  • Vladimir Kemenov, "Aspects of Two Cultures", VOKS Bulletin. Moscow: Society for Cultural Relations with Foreign Countries, 1947, in Charles Harrison and Paul Wood (eds.), Art in Theory, 1900-2000. An Anthology of Changing Ideas, Malden/Oxford/Victoria: Blackwell Publishing, 2003, p. 656-658

  • Bases of Marxist-Leninist Aesthetics (ed. by A. Sutyágin), Moscow: State Publishers of Political Literature; Institutes of Philosophy and History of the Academy of Sciences of the USSR, 1960

  • "The Lofty Calling of Soviet Art is to Serve the People and the Cause of Communism", Pravda, 2 de Dezembro de1962 in http://www.soviethistory.org/index.php?page=article&ArticleID=1961khrushchexhib1&SubjectID=1961khrushcharts&Year=1961

  • Nikita Khrushchev, "Conversation at the Manege Exhibit", 1 de Dezembro de 1962 in http://www.soviethistory.org/index.php?page=article&ArticleID=1961khrushchmanezh1&SubjectID=1961khrushcharts&Year=1961 a 24.08.2011

  • Komar and Melamid, "The Barren Flowers of Evil", Artforum, March 1980. Também consultável em Primary Documents. A Sourcebook for Eastern and Central European Art since the 1950s (eds. Laura Hoptman and Thomáš Pospiszyl), pp. 258-271

Bibliografia:

  • BOWN, Matthew Cullerne, Socialist Realist Painting, New Haven / London: Yale University Press, 1998

  • BOYM, Svetlana, Common Places. Mythologies of Everyday Life in Russia, Cambridge, Mass. / London: Harvard University Press, 1994

  • BRANDENBERGER, David, The 'short course' to modernity: stalinist history textbooks, mass culture and the formation of popular Russian national identity, 1934-1956, Ann Arbor, Mich.: UMI Dissertation Services, 1999

  • BUCK-MORSS, Susan, Dreamworld and Catastrophe. The Passing of Mass Utopia in the East and West, Cambridge, Mass.: The MIT Press, 2000

  • CLARK, Katerina; DOBRENKO, Evgeny; with ARTIZOV, Andrei and NAUMOV, Oleg, Soviet Culture and Power. A History in Documents, 1917-1953, New Haven / London: Yale University Press, 2007

  • ERJAVEC, Aleš (ed.), Postmodernism and the Postsocialist Condition. Politicized Art Under Late Socialism, Berkeley / Los Angeles / London: University of Carolina Press, 2003

  • FAST, Piotr, Ideology, Aesthetics, Literary History: Socialist Realism and Its Others, Frankfurt am Main, New York: Peter Lang, 1999

  • FIGES, Orlando, Natasha's Dance. A Cultural History of Russia, London: Penguin, 2002

  • FITZPATRICK, Sheila, The Cultural Front. Power and Culture in Revolutionary Russia, Ithaca / London: Cornell University Press , 1992

  • GRAY, Camilla, The Great Experiment: Russian Art 1863-1922, London: Thames and Hudson, 1962

  • GROYS, Boris, Art Power, Cambridge, Mass. / London: The MIT Press, 2008; Staline. Oeuvre d'Art Totale, Nîmes: Éditions Jacqueline Chambon, 1990 (1988); The Communist Postscript, London / New York: Verso, 2009 (2006)

  • HEMINGWAY, Andrew (ed.), Marxism and the History of Art. From William Morris to the New Left, London / Ann Arbor, MI: Pluto Press, 2006

  • HOPTMAN, Laura; POSPISZYL, Tomáš (eds.), Primary Documents: A Sourcebook for Eastern and Central European Art since the 1950s, New York: The Museum of Modern Art, 2002

  • IRWIN (ed.), East Art Map: Contemporary Art and Eastern Europe, London: Alterall, Central Saint Martins College of Art and Design, University of the Arts London, 2006

  • JAMES, C. Vaughan, Soviet Socialist Realism: Origins and Theory, London: Macmillan Press, 1973

  • JDANOV, Andrei, Sur la Littérature, la Philosophie et la Musique, Paris: Les Éditions de la Nouvelle Critique, 1950

  • JOHNSON, Priscilla, Khrushchev and the Arts: the Politics of Soviet Culture, 1962-1964, Cambridge, Mass.: The MIT Press, 1965

  • LAHUSEN, Thomas; DOBRENKO, Evgeny (eds.), Socialist Realism Without Shores, Durham, N.C.: Duke University Press, 1997

  • SEMENOFF-TIAN-CHANSKY, Irène, Le Pinceau, la Faucille et le Marteau: Les peintres et le pouvoir en Union Soviétique de 1953 à 1989, Paris: Institut d'études slaves, 1993

  • SJEKLOCHA, Paul; MEAD, Igor, Unofficial Art in the Soviet Union, Berkeley / Los Angeles: University of Carolina Press, 1967

  • TAYLOR, Brandon, Art and Literature under the Bolsheviks. Vol. 1: The Crisis of Renewal 1917-1924; Vol 2: Authority and Revolution 1924-1932, London / Concord, Mass.: Pluto Press, 1991-1992

  • ZUBOK, Vladislav, Zhivago's Children: the last Russian intelligentsia, Cambridge, Mass.: The Belknap Press of Harvard University Press, 2009

Catálogos:

  • Dream Factory Communism. The Visual Culture of the Stalin Era, ed. by Boris Groys and Max Hollein, Frankfurt: Schirn Kunsthalle Frankfurt, Hatje Cantz, 2004

  • From Gulag to Glasnot. Nonconformist Art from the Soviet Union, ed. by Alla Rosenfeld and Norton T. Dodge, New York: Thames and Hudson; New Jersey: Jane Voorhees Zimmerli Art Museum, 1995

  • Ilya Kabakov: Installations 1983-2000: Catalogue raisonné. 2 vols, ed. by Toni Stoss, Düsseldorf: Richter Verlag, 2003

  • It's de Real Thing. Soviet and post-Soviet Sots Art and American Pop Art, ed. by Regina Khidekel, London / Minneapolis: Frederick R. Weisman, University of Minnesota Press, 1998

  • Russia!, New York: Guggenheim Museum, 2005

  • Sots Art: Eric Bulatov, Vitaly Komar and Alexander Melamid, Malexander Kosolapov, Leonid Lamm, Leonid Sokov, Kasimir Passion Group, ed. by Margarita Tupistyn, New York: New Museum of Contemporary Art, 1986

  • ВРЕМЯ ПЕРЕМЕН. ИСКУССТВО 1960-1985 в СОВЕТСКОМ СОЮЗЕ (Tempos de Mudança. A Arte entre 1960 e 1985 na União Soviética), Saint Petersburg: Palace Editions, 2006

Artigos em periódicos:

  • BUCHLOH, Benjamin H. D., From Faktura to Factography, October, Vol. 30, Autumn 1984

  • DEGOT, Ekaterina, How to Qualify for Postcolonial Discourse, Artmargins, November 1, 2001 (http://www.artmargins.con/index.php/2-articles/325-how-to-qualify-for-postcolonial-discourse)

  • FORGACS, Eva, How the New Left Invented East European Art, Centropa, May 15, 2003

  • HEMINGWAY, Andrew, Marxism and Art History after the Fall of Communism, Art Journal, Vol. 55, N. 2, Summer 1996

  • ZABEL, Igor, We and the Others, Moscow Art Magazine, N. 22, 1998