Artes e Cultura > O design gráfico e a revolução soviética

Em 1917, quando a revolução soviética aconteceu, já se praticava na Rússia arte de vanguarda com intenções revolucionárias, ou pelo menos políticas. Vassili Kandinsky já fazia pintura abstracta, Kasimir Malevitch já tinha pintado o seu quadrado negro. Os Futuristas Russos já existiam há algum tempo, acompanhando um movimento global que se manifestava um pouco por todo o lado. Os seus homónimos italianos, com Marinetti à cabeça, eram estrelas globais. Nem um mês depois da Revolução de Outubro, Almada Negreiros, Santa Rita Pintor e José Pacheko lançavam a revista Portugal Futurista.

A ideia de uma arte que não se isolava num pedestal, que se ligava directamente à sociedade, à política e até à revolução, não era nova. Em 1825, Olinde Rodrigues, amigo de Saint-Simon, tinha sido o primeiro a usar o termo de origem militar "avant-garde" em relação às artes, num sentido político, querendo dizer que cabia aos artistas fazer a propaganda das ideias novas. Ao longo do século XIX, a reacção aos efeitos da revolução industrial e ao advento do capitalismo tinha-se feito também através das artes. O movimento Arts & Crafts, por exemplo, tentava encontrar modos de combater a arte do capitalismo, alheia a preocupações sociais, fechada sobre si mesma, monumentalizando a diferença entre classes através de clivagens entre artes menores e maiores - aquilo que o seu fundador William Morris via como a arte dominada pela plutocracia. Morris, uma das figuras fundadoras do design enquanto disciplina, era também um líder entre os movimentos socialistas, tendo sido o representante do Reino Unido na Segunda Internacional de Paris, em 1889. Ambicionava a criação de uma arte que não se distinguia do artesanato, que procurava unificar o que a revolução industrial tinha estilhaçado, dignificando o trabalho, colocando a arte e a qualidade de vida ao alcance de todos numa sociedade igualitária. Seriam essas as bases políticas da disciplina que já se começava a chamar design.

A Revolução Soviética de 1917 seria vista como uma oportunidade única para concretizar esses ideais utópicos. Muitos artistas das vanguardas puseram-se rapidamente ao serviço do novo regime. A abstracção e espiritualidade subjectiva dos Suprematistas seria substituída por uma postura onde o artista apagava a sua individualidade colocando-se ao serviço da comunidade.

Uma dessas tarefas seria a mobilização e informação da população, crucial num período de guerra civil, através da propaganda de agitação. A agit-prop assentava numa longa tradição popular russa de comunicação gráfica como os Lubki (gravuras narrativas em madeira praticada desde o século XVII) e o Rayok (dioramas itinerantes com cenas satíricas e históricas). Usava formatos tradicionais como o cartaz, usando tanto o geometrismo abstracto das vanguardas (Alexander Rodchenko, El Lissitsky, Varvara Stepanova, os Irmãos Stenberg) como uma linguagem gráfica convencional alegórica e historicista, derivada do romantismo e do simbolismo (veja-se a obra dos artistas Alexander Apsit, Boris Zvorykin e Dmitri Moor).

Também se ensaiavam novos modos de fazer chegar informação e propaganda às populações usando carroças, camiões ou comboios publicitários. Um formato particularmente bem-sucedido durante o período revolucionário foram as Janelas da ROSTA (Agência Russa de Telegrafia), narrativas gráficas semelhantes a banda desenhada produzidas com stencil sobre os mais variados suportes, desde o papel às paredes exteriores dos vagões. Foram criadas em 1918 por Mikhail Cheremnykh e seriam feitas aos milhares por uma equipa que incluiu o poeta futurista Vladimir Mayakovsky, Alexander Rodchenko, Dmitri Moor, entre muitos outros.

O modo como a arte podia ser posta ao serviço do comunismo era também discutido em associações como o INKhUK (Instituto de Cultura Artística, 1920-1924) de Moscovo, um grupo de artistas, arquitectos e designers, incluindo Kandinsky, Lissitsky, Rodchenko e Stepanova. Do debate do INKhUK saiu a revista LEF (abreviatura para Frente de Esquerda para as Artes), editada por Rodchenko e Mayakovsky em duas séries, em 1924-1925 e em 1927-1928, já como Novyi LEF. Saíram também muita das bases teóricas para os programas educativos da escola estatal de arte, design e arquitectura de Moscovo, VkHUTEMAS (renomeada VkHUTEIN a partir de 1926, dissolvida em 1930).

Nestes debates elaboraram-se as bases teóricas do Construtivismo, um ambicioso programa que procurava fundir o processo de criação com o Comunismo. Seria empregue para produzir não apenas agit-prop mas também publicidade a produtos comerciais - o que o poeta Mayakovsky designava como "agitação económica" - durante o breve período em que se autorizou a competição entre empresas privadas e estatais como modo de revitalizar a indústria depois da guerra civil. Foi neste período que Rodchenko produziu o seu famoso poster onde uma mulher grita dramaticamente a palavra "livros" ou que os irmãos Stenberg criaram os seus posters de cinema. O Construtivismo foi dos primeiros movimentos a usar intensa e sistematicamente a fotomontagem e a colagem. Não se tratava apenas de uma técnica mas de uma ideia política, que encenava sobre o papel um equivalente à teoria da montagem cinematográfica desenvolvida pelos realizadores soviéticos como Pudovkin ou Eisenstein. Era uma forma de arte que, através da justaposição e sobreposição de imagens fotográficas, através da colagem ou na câmara escura,procurava produzir ideias inteiramente novas, uma arte da idade das máquinas, capaz de fugir finalmente ao domínio da tradição.


Mário Moura
































Bibliografia e sites recomendados:

Livros

  • KAHN-MAGOMEDOV, Selim O., Vhutemas: Moscou 1920-1930, Editions du Regard, 1990

  • MARGOLIN, Victor, The Struggle for Utopia: Rodchenko, Lissitzky, Moholy-Nagy, 1917-1946, University of Chicago Press, 1998

  • DRUCKER, Johanna & MCVARISH, Emily, Graphic Design - A Critical Guide, Person, 2008

  • ESKILSON, Stephen J., Graphic Design: A New History , Yale University Press, 2007

Instituições